O arco do tempo tem uma de suas pontas fincadas no período escravagista quando os negros do grupo banto de Angola e das costas do Congo e de Benguela chegaram como escravos nos costados do Brasil, mais precisamente, no atual estado de Pernambuco.
Tinham em comum, além da dor e do desespero, a língua bunda.
Com as fugas, os poucos escravos originários e seus descendentes esconderam-se numa ponta de terra que entrava pelo mar adentro, nominada de Cabo de Santo Agostinho pelos Oficiais da Companhia de Jesus, os jesuítas, que batizavam tudo, das cabeças cruéis daqueles detentores de escravos a seus chicotes, e o faziam sem pruridos, mas com dízimos regiamente crescentes e despudoradamente compulsórios.
Naquele local, de águas mornas, as ondas eram enormes como que a natureza quisesse assinar a sua revolta, o seu protesto contra as indignidades perpetradas contra os corpos daqueles desgraçados cujas cicatrizes eram a impressão das ofensas e das desgraças que foram submetidos.
Banhavam-se nas piscinas naturais daquela parcela de mar que denominaram de praia, a Praia do Paiva, numa homenagem justa ao primeiro escravo que descobriu e conduziu os demais, em tempos pretéritos, àquela região de paz e de procriação entre si.
O problema advindo da consangüinidade não tardou, mas os nascimentos continuavam apesar das mortes prematuras e das anomalias nos nascituros que vingavam, afinal os ditames que os norteavam era de manterem a unidade, perdida desde que seus ancestrais foram lançados nos porões pérfidos dos navios negreiros.
A outra extremidade do arco encontra apoio nos meados de 1950, numa noite assustadora pelas forças dos ventos e pelo eclipse lunar.
O ambiente estava irrespirável não pela precária circulação de ar nas parcas dimensões daquele cômodo tosco, iluminado por uma lamparina de querosene, mas pela tensão provocada por aquele parto natural que de natural não tinha nenhum resquício, pois, apesar da criança estar devidamente encaixada, a dilatação da mãe não era suficiente, apesar dos seis partos anteriores terem transcorridos sem nenhum óbice.
O problema decorria da anomalia genética comum naquela comunidade desde aqueles tempos ancestrais, gerada pela aludida consangüinidade perpetua, mas aquele nascituro tinha uma proeminência exagerada que desqualificava a dos demais (descendentes), pois, o prolongamento do queixo era desgraçadamente digno do vocábulo “queixada” que martirizava a mãe e dificultava a sua chegada ao mundo.
Com a continuação das dores lancinantes, a mãe deixou de implorar a Deus a sua ajuda, após, horas de suplícios e de pedidos reiterados, e, então, apelou ao Coisa Ruim.
Este não se dignou a dar o ar de sua graça, afinal a alma daquele moleque já o pertencia e seu tempo, por mero pragmatismo, era dedicado a conquistar almas de propriedade de seu adversário figadal. Em outras palavras, atender o clamor da mãe seria inócuo aos seus propósitos.
Contudo, segundo comentários de um assecla do diabo, ele não iria em hipótese nenhuma, pois, cumpria fielmente as normas por ele promulgadas, afinal o ar naquele casebre, pelo passar do tempo, tornara-se quase irrespirável, isso tomando por base o índice de suportabilidade do ar (ISA), do inferno.
A passagem daquele portentoso queixo provocou os desmaios da mãe, pela dor excruciante, desumana; das três parteiras, pela visão daquela anomalia estupenda e por tabela, causou uma indecisão patética no pai que levou alguns segundos preciosos para completar o serviço, ou seja, dar os tradicionais tapinhas nas costas do recém-nascido.
No nervosismo do momento, a última das palmadas, aliás, a mais forte foi de encontro a uma das metades da bundinha do bebê, e esse tapa causou mais uma deformidade naquele pequenino que, do contrário, ostentaria um senhor calipígio.
O tempo foi passando e aquele moleque realmente tinha parte com o capeta, pois, infernizava a vida das outras crianças, nas brincadeiras, nas pescarias, nos banhos de lamas que segundo a lenda tinha propriedades especiais.
E dentre essas qualidades, a mais desejada era a de provocar o crescimento, afinal àquela população, as estaturas eram baixas em decorrência de mais um dos efeitos colaterais dos casamentos parentais e, por isso, chafurdavam na lama.
Aquele guri não fugia a regra da altura diminuta, em compensação às duas exceções eram evidentes: o tamanho descomunal do queixo e a capacidade de recriar situações vividas ou não, sempre apoiadas na galhofa.
Em razão das gargalhadas provocadas, os ouvintes adultos esqueciam a natureza de cão daquele pivete que ficou patenteado quando num ataque convulsivo destruiu a pia batismal da capela do povoado, ao sentir o derramar de água sobre sua cabeça para lavar o seu pecado original.
O padre indignado e preocupado por não ter a dádiva do exorcismo não proferiu as palavras sacramentais para completar a liturgia e considerou que batizado estava e ponto final.
A vida seguiu seu curso natural e Dudu, o moleque travesso, seguia sempre em frente, aos empurrões, contudo, entre avanços e recuos, só Deus sabe como, acabou se formando em uma faculdade pública.
Imigrou para o Rio de Janeiro, prestou concurso público e passou com a distinção de não ser o último colocado, foi o antepenúltimo.
O desconforto no primeiro mês de trabalho era natural, primeiro, pela tensão advinda do primeiro emprego, segundo, pelo desconforto no vestir, as suas roupas estavam gastas e puídas pelo tempo. Entretanto, tudo era uma questão de tempo e no caso, pouco, no final do mês com o holerite na mão foi às compras.
Por fidelidade aos fatos, abro um parêntesis (Foram as primeiras compras a prestações, que por vício ou necessidade, em tempo algum da sua vida, jamais conseguiu sair dos malditos crediários. Fecho o referido sinal gráfico).
Por natureza e gosto, as cores das vestes compradas eram berrantes, isso para ser condescendente, pois o uso do superlativo seria o mais adequado.
No dia seguinte, ao adentrar no ambiente de trabalho sentia-se enorme, apesar da baixa estatura, mas seu ego não se continha em suas roupas.
Aquele ego deveria ser analisado nos maiores institutos de psiquiatrias do mundo, pois conseguia ser mais extravagante que o gosto do Dudu. (e olha que isso não é pouca coisa).
Deu um sonoro bom dia aos colegas de trabalho e só depois num gesto ensaiado exaustivamente retirou da face aqueles óculos azuis com suas lentes diminutas, em formato redondo, um verdadeiro despropósito, tanto na utilidade, pois, estava em ambiente fechado, longe dos raios solares, quanto no absurdo da escolha.
A partir desse momento, tornou-se uma figura ímpar, ou melhor, numa figurinha carimbada para seus pares, mas a bem da verdade, querida, por sua capacidade de desanuviar qualquer ambiente com suas tiradas espirituosas e às vezes conjugada com certa dose de ingenuidade.
O importante é que nos meados dos anos 80 aquele neguinho sagaz alcançava uma posição de destaque profissional, em sua especialidade, complexa por natureza.
Faria sua primeira viagem internacional com o peso de representar a sua empresa num Congresso Internacional, onde participaria do último painel do evento, o mais importante e o mais concorrido, tendo a responsabilidade de ser último palestrante.
O fato de não se expressar em inglês, a língua oficial do evento, não causou nenhum desconforto, pois, existia a tradução simultânea para diversas línguas, executadas por profissionais que dominavam, também, os temas técnicos a serem abordados.
O Congresso transcorria dentro das expectativas dos organizadores quanto a dos participantes.
Isso até a chegada do Dudu que adentrou o recinto com um semblante sóbrio, mas em compensação, com uma indumentária multicolorida que chamou atenção, inclusive dos olhares mais desavisados.
Feita a saudação de praxe, iniciou a palestra.
Exatamente na metade do tempo de sua exposição, aconteceu o inesperado, um gráfico projetado apresentava um dado completamente equivocado que era o fulcro do estudo em apresentação. A principal variável que embasava e sustentava a tese estava grotescamente errada na tela como no estudo.
Na platéia de especialista, as vozes de questionamentos sobre aquele desgraçado erro surgiram imediatamente, transformando aquele espaço numa verdadeira Torre de Babel.
Diante da situação insustentável ao perceber a tragédia que destruía a sua reputação e maculava definitivamente a imagem de sua empresa, tentou ganhar tempo e de sua boca sustentada, inequivocamente, por aquele queixo proeminente, saiu a expressão: Veja bem! Veja bem!
Quando os tradutores transpuseram para as línguas a expressão (Veja bem!) o dano foi maior, pois, os impropérios dos participantes tomaram uma dimensão desqualificadora, afinal, as expectativas frustradas de uma inovação que transformariam o segmento daquelas indústrias não passava de um charlatanismo.
No meio do caos, Dudu perdido utilizou-se do seu único trunfo, a bunda. Não a bunda anômala dele, mas a língua de seus antepassados.
Sem tradutores capacitados para verterem as palavras proferidas pela ruína humana que se transformara Dudu; sem controle contra a indignação dos participantes, os responsáveis do evento solicitaram a entrada dos paramédicos que ao constatarem que Dudu estava arrebatado por algo que desconheciam, não titubearam, colocaram numa camisa-de-força de uma única cor, branca, e encaminharam para um Instituto de Psiquiatria.
Loucos ficaram os promotores do evento com os insultos, com as ameaças de processos dos participantes que efetivamente ocorreram, deixando-os falidos, em termo privados, e execrados publicamente.
No retorno ao Brasil a empresa em que trabalhava o Dudu para não ferir a legislação trabalhista, apesar de encontra-se ferida de morte pela pulverização, no sentido de transformar em pó, dos valores de suas ações no mercado de capitais, o encaminhou a diversos especialistas e pagou regiamente os tratamentos.
Tentativas vãs, para a empresa e para Dudu.
Nos corredores sombrios do manicômio, Dudu com a síndrome de múltiplas personalidades surpreende os médicos em sua insanidade.
Li o prontuário da semana passada.
Na segunda-feira, Dudu, vestido apenas com uma bóia de criança, essa de plástico vagabundo que tem a figura de um patinho, desfilava emitindo um som quase inaudível: Ajuda! Ajuda!
(abaixo do relato acima, havia uma observação transcrita por um médico: “o pai do paciente relata que o mesmo não sabe nadar e em tempos passados, por impulso lançara-se de uma escuna ao mar e para não aumentar o ridículo da situação, ao invés de berrar: Socorro! Socorro! - gruiu: Ajuda! Ajuda!”);
Na terça-feira, Dudu travestiu-se de motorista e, com uma tampa de panela nas mãos a fazia de volante. Indagado pelos profissionais respondeu que não era um motorista qualquer e, sim de Kombi. E imitava os sons do motor da mesma.
(abaixo consta a transcrição de um psiquiatra: “a esposa do paciente relata que para minimizar os transtornos para a ida ao trabalho e o retorno para casa, o Dudu convenceu alguns colegas de trabalho que moravam no mesmo subúrbio a se cotizarem para a compra do aludido utilitário e se revezarem na direção. O projeto foi implantado, mas com um único senão, não houve revezamento, e Dudu transformou-se em motorista oficial. Resultado: acordava mais cedo, chegava mais tarde e era obrigado a aturar as idiossincrasias dos colegas, a manutenção do veículo, etc. Essa maldita idéia o levou ao estresse e ao divã de um psicanalista!”);
De quarta-feira a sábado, o comportamento do Dudu foi um mistério, pois, ficou diante de uma caixa de fósforo que segundo ele, era a sua televisão. Ficava absorto como estivesse a desejar a concretização de uma determinada imagem; de repente imitava um apresentador de auditório com um sorriso nos lábios e o indefectível: Ai, ai, ai... ai, ai, ai, e finalmente, levantava do chão e como estivesse a beira de uma janela ficava aguardando a chegada do caminhão do Baú da Felicidade. Essa seqüência acima não era seguida nessa ordem ao longo do tempo.
(abaixo consta à transcrição de um psicólogo: “segundo a esposa do paciente, Dudu se transformava num crédulo estúpido quando aguçavam a sua cobiça. Convencido não é bem o termo para o meu marido ter aceitado as argumentações e a proposta de um vendedor de carnês que prometia o sorteio (nada ortodoxo), num programa dominical, de um dos carnês das dezenas que foram empurrados para pagamento. Ele acreditou. Ficamos seis meses a frente do televisor esperando o sorteio. Quando percebeu que tinha caído no conto-do-vigário à desgraça estava feita. Minha mãe separou-se de meu padrasto pelas cobranças dos agiotas, pois, Dudu os convenceu a investirem naquele negócio. Vendemos o que tínhamos dentro de casa para não sucumbirmos às ameaças daqueles brutamontes dedicados a agiotagem. Passamos meses a pão com banana.”);
No domingo, Dudu com brilhos estranhos nos olhos e com a verve dos causídicos fazia discursos densos em bunda, sempre em pé para cumprir a liturgia dos grandes oradores e para não sentir o desconforto de sua bunda, no ato de sentar.
Os registros daquele domingo em curso seriam assentados depois. Contudo, assistia aquela cena patética e comovedora a certa distância.
Quando percebi, estava revisando o passado daquela triste figura. O destino cruel, como o tempo, não havia deixado um mísero atalho como alternativa para sua vida e os seus passos sempre foram perdidos desde o nascimento até a presente hora.
A maioria das crianças nasce de cabeça para o mundo, ele nasceu de queixo para o universo e esse sinal já era um indicativo que sua vida seria um estorvo.
Isso, não levando a termo as súplicas da mãe no momento do parto, a Deus e depois ao Diabo que foram solenemente ignoradas e por questão de preservar a minha alma não estabelecerei nenhum juízo de valor sobre esse fato.
Sempre foi um desigual e continuará sendo, pois, suas bundas, a física e a falada são incompreensíveis aos mortais, mesmo relevando a sua queixada que apesar de anômala tem mais um vício, a de teimosamente chegar primeiro que o seu nariz.
Triste o destino do Dudu. Hoje, palestrantes de todos os matizes utilizam o seu revés naquele Congresso Internacional, como “case”, ganhando fortunas, provocando risos nas platéias, e cretinamente não pagam os devidos royalties ao Dudu.

EXCELENTE
ResponderExcluirRoberto,
ResponderExcluirObrigado pelo incentivo.
Paulão