Os tempos eram outros, indubitavelmente, no final da década de vinte do século passado.
Quanto ao comportamento humano não se pode afirmar o mesmo, as suas relações não sofreram quaisquer alterações sejam mudanças na forma ou no conteúdo.
Entre os companheiros músicos de copo, o seu José Quirino, casado com Maria, não cansava de repetir com ares de fumos o aforismo de lavra própria: “O procedimento do ser humano hoje é idêntico ao do passado, e no futuro também o será, apesar das teorias afirmarem o contrário. Fico com os fatos. A natureza humana é imutável”.
José Quirino, conhecido por Quindinho nos meios musicais era integrante da orquestra filarmônica de Pernambuco, conceituado na profissão, tímido, recatado e para sua infelicidade tinha na esposa, o seu avesso. O gênio de Maria não poderia prescindir do adjetivo: mau.
Era de uma irascibilidade, de uma iracúndia monumental que somente encontrou um oponente à altura, o Presidente do Brasil, Arthur Bernardes, que exercera o mandato entre 15 de novembro de 1922 e 15 de novembro de 1926.
Maria, que exigia o tratamento de madame conjugado com seu sobrenome, sempre fora envolvida em confusões, primeiro, por não conter a sua língua viperina e, segundo, pela sua compulsiva intromissão no terreno do alheio.
Naquela época, a Igreja Católica tinha grande ascendência sobre o Poder Público que, na prática, provocava uma superposição de poderes, uma promiscuidade que passava ao largo no trato da coisa pública, em resumo, era um ente único e anômalo.
Nas apresentações solenes o Bispo fazia-se presente com toda sua imponência e pompa.
As reverências ao prelado que exercia o governo espiritual da diocese eram rigorosamente cumpridas com todas as formalidades exigidas pela liturgia do cargo.
Os políticos dirigiam-se ao Bispo com deferência máxima não esquecendo o tratamento adequado de Eminência, e respeitosamente, ajoelhavam-se, beijavam o seu anel e pediam as bênçãos necessárias, as supérfluas e os descrentes, as protocolares.
Agora, as atitudes da madame Crespo, em relação à ritualística eram uma afronta às regras do protocolo e do bom-senso.
Em quaisquer situações dirigia-se ao Bispo, no máximo usando o tratamento de senhor, e sempre para tecer comentários desairosos sobre as beatas, sobre a qualidade da água benta, sobre a necessidade de substituição de alguns santos na catedral pelos de sua devoção, e por aí seguia nas suas idiossincrasias.
Enfim, sua peroração infinda acabou provocando uma animosidade entre aquele representante de Deus e ela, uma criatura de 1,52 m de altura, mas um Himalaia de inconveniências.
Numa manhã em que o calor era senegalesco o Bispo vendo a aproximação da madame Crespo, utilizou-se do único subterfúgio que estava efetivamente às suas mãos: a Bíblia. Colocou o livro sagrado na frente do seu rosto para fingir que não a enxergara.
Não prestou.
Ouviu em alto e bom som as palavras constrangedoras da madame Crespo:
“Senhor Bispo, pode tirar o livro da cara, pois, não estais na frente do inimigo (Satanás). E sim, na presença de uma senhora muita fina e honesta, cujo marido toca na orquestra, para Vossa Excelência se deleitar”.
Assim era e agia madame Maria Emília Rolin Gamboa Faria de Castro Crespo.
Gostava de ressaltar sua descendência francesa, Rolin, salientando que possuía uma fórmula deixada a título de herança, por seus ascendentes, de um perfume denominado “Le Conde du Corqui”.
Nos estertores da década de 50 a madame Crespo, agora viúva e sem filhos, com seus 82 anos, tornou-se proprietária de uma vila de casas no Riachuelo - um dos subúrbios na Capital da República, que eram alugadas para prover o seu sustento e uma ajuda precária e inconstante, a depender do seu humor, a um sobrinho-neto.
Colocado desta forma sucinta, a sua vida, apesar das mazelas comuns da idade induz a todos crerem que não era uma vida atribulada. Um grande engano.
Seus inquilinos sofriam e penavam nas garras da madame.
Certa feita, um desses infelizes foi ao seu sobrado para fazer uma reclamação justa e acabou escorraçado, ouvindo dentre outros impropérios a seguinte repreensão:
“Ponha-se fora do meu solar, imediatamente, pois do contrário irei à delegacia fazer parte do senhor”.
Alugava os porões de suas casas e caso houvesse inadimplência, não titubeava, jogava um penico cheio de urina colhida na noite anterior pela única abertura que por mero exercício de boa vontade, chamarei de janela, a única ventilação daquele espaço exíguo e insalubre que vá lá, denominarei de moradia.
Ao lançar aquele líquido excrementício segregado pelos rins o fazia acompanhada de afrontas e de injúrias, pelo atraso do vil metal, mesmo que o fosse por um mísero dia.
Infernizava a tudo e a todos.
Tinha um pavor desmedido dos trabalhos de macumba que, aliás, eram usuais em sua vila e direcionados quase com exclusividade à sua pessoa.
Procurara os serviços de um macumbeiro que a escorchava com o fito de protegê-la dos seus desafetos que não eram poucos e o número era aumentado pela invocação deles a uma legião de espíritos errantes.
Com o passar do tempo, a madame, percebeu o engodo e levou-me a safanões à delegacia como testemunha da ação do falso pai-de-santo para denunciá-lo.
Quando as pessoas perguntavam a ela sofre a reação do “pai Quindinho”, o denunciado, respondia: “Ele estava com os beiços tremendo como um cavalo”.
E a testemunha, madame Crespo? E a testemunha?
Respondia: “O Paulo (eu) estava lívido e cabisbaixo”.
As confusões, as idas e vindas da delegacia eram tão freqüentes que o delegado não mais levava em conta as denúncias da madame.
Acordara certa feita com um despacho em frente a sua casa e sua reação foi imediata, bradando a plenos pulmões:
“Volta para quem te mandou, diz que não me encontrou e senta o cacete em quem te enviou”.
A vida seguia seu curso tortuoso naquela vila e a madame Crespo utilizava-se de uma única frase para definir e desqualificar os seus inimigos incontáveis: “Fulana (o) de tal, é uma serpente da Índia, fantasiada (o) de morcego”.
Confesso que minha cota de paciência desapareceu quando ela relatou um sonho, ocorrido na noite anterior:
“Paulo, sonhei com um cachorro chamado Tório e que ele estava sentado sobre uma pilastra, com ar compenetrado. Diante daquela cena, perguntei: Tório, o que você está fazendo aí em cima?
E o cachorro respondeu: "estou evoluindo.”
Foi o último e derradeiro diálogo que tive com madame Crespo.
Provavelmente estou num processo de involução, transformando-me, quem sabe, num cachorro, ou num rato.
Aceito esse destino sem questionamento para livrar-me definitivamente do convívio com a madame, do contrário eu que ficarei crespo, conforme definição que consta dos dicionários: áspero, escabroso, indecoroso, indecente.
Além do mais, não tenho ascendência francesa, não possuo uma vila de casas e nem disponho de uma fórmula para sobreviver, o que dirá a de um perfume francês.
Paulo somente quem viveu este momento sabe o valor que representa este texto e no que ele nos toca.
ResponderExcluirCreio que vc deveria estar colocando estes textos nos jornais para podere emocionar muita gente.
Um forte abraço querido.
Faria