O Memorial dos coronéis encaminhado à alta hierarquia militar, em fevereiro de 1954, protestando contra a exigüidade dos recursos destinados ao Exército e repudiando a proposta governamental de elevação do salário mínimo em 100%, tiveram grande repercussão e demissões de ministros no Governo de Getúlio Vargas..
Entretanto naquela região interiorana de Juiz de Fora a efervescência do Distrito Federal não provocara nenhum reboliço naquela rotina enfadonha, típica do interior do Brasil.
O coronel Souto Menor que jamais cerrara fileiras no Exército, mas detentor da patente pelo poder econômico não tinha nenhuma preocupação. Não assinara o documento, pois, sua patente era de outra espécie e caso não fosse, não assinaria pela discordância, mas pelo seu analfabetismo crônico e no tocante ao aumento do salário, isso era irrelevante, afinal, os colonos de suas fazendas quando recebiam alguns trocados deveriam dar graças a Deus e ultimamente, a bem da verdade, o Senhor não ouvia agradecimentos daqueles pobres diabos.
No fundo a preocupação do coronel era com a iminência do parto de sua esposa que atravessava uma gestação complicada.
No dia seguinte, a levaria para a Santa Casa, juntamente com a mulher do Nhozinho, um de seus colonos que morava num dos limites de sua maior fazenda que por essas coincidências da vida, daria luz na mesma época.
O gesto e o gosto não eram próprios e sim, da sua esposa.
Na manhã seguinte as mudanças no humor da natureza faziam-se presentes. O céu enegrecido tinha nesgas de claridade pela presença constante dos relâmpagos que vinham acompanhados da solidariedade irrestrita dos trovões.
As nuvens se desidratavam pela quantidade absurda das chuvas.
Sem alternativas para cumprir o desejo da mulher, pela impossibilidade de buscar a outra parturiente, levou a esposa ao hospital, isso sem o menor drama de consciência.
Nhozinho que não admitia que outro homem pudesse bolinar as partes da patroa ficara calado, mas contrariado com a determinação do patrão de levá-la ao hospital, entretanto, aquele dilúvio que caía, criou nele outro alento e não hesitou nem mais um segundo, partiu em busca de uma parteira no meio daquele temporal.
Quando chegaram, a bolsa já tinha estourado e as dores eram lancinantes.
Os panos de linhagem estavam limpíssimos sobre uma caixa de tomates vazia, a água já fervia no caldeirão sobre o fogão a lenha. A luz bruxuleante da lamparina a querosene trazia toda luminosidade possível para conduzir ao mundo, o bebê.
Para o espanto de Nhozinho não era um e sim, dois.
Na Santa Casa a esposa do coronel, mesmo com complicações na hora do parto, deu a luz a gêmeos do sexo masculino.
Vinte dias depois, na casa do coronel o tabelião foi lavrar as certidões de nascimentos das crianças.
Sempre por deferência da esposa do coronel, Nhozinho também providenciou a documentação dos filhos.
Aquela sucessão de coincidências: partos no mesmo dia; a chegada de gêmeos (masculinos) de ambos os casais, culminou com a escolha de um dos nomes, os do coronel, Nilo e Sérgio, os do Nhozinho, Nero e Nilo (uma homenagem exigida pela sua mulher ao nome do patrão).
Nhozinho nada sabia sobre a existência do Império Romano e muito menos da civilização egípcia (Nero – imperador; Nilo – o rio).
Caso aquele tabelião fosse um profissional digno, tentaria demover a escolha de Nhozinho ao nome Nero para o filho, afinal, naquela época, no Brasil, 70% dos cachorros recebia tal alcunha.
As crianças cresceram juntas, apesar do desnível social.
As amizades foram forjadas ao longo do tempo, nas brincadeiras, nas caçadas aos bichos e aos passarinhos, nos mergulhos e pescas no rio que cortava a propriedade.
Fizeram o curso primário na mesma escola pública e na mesma sala de aula.
Além da diferença social, existiam diferenças fundamentais entre os gêmeos, os de Nhozinho eram univitelinos, isto é, idênticos, enquanto os do coronel eram bivitelinos que só tinham uma coisa em comum, a data do aniversário.
Nilo e Nero eram cópias escarradas um do outro, além de possuírem outra identidade, essa gravosa, eram gagos.
Nesse ambiente de formação foi onde travaram o contato com a cruel realidade da vida, pois, quando na hora da chamada e chegava à letra “N”, os professores, sem exceção, chamavam nessa ordem: Nilo (o filho do coronel) e depois, Nilo Gaguinho (filho de Nhozinho).
Sofreram depois do didatismo dos professores, gozações e preconceitos das outras crianças que por natureza são cruéis, mas a solidariedade dos outros gêmeos ajudou a superar, na medida do possível, as suas deficiências.
Impossibilitados de continuarem os estudos, por imposição dos pais, afinal precisavam ajudar nos trabalhos para manterem a sobrevivência diária, cursaram até a primeira série do ginásio.
Os contatos com os amigos ficaram restritos aos domingos, isso quando Nilo e Sérgio iam à fazenda.
O tempo seguia com sua tirania, assassinando sonhos, destruindo possibilidades e impingindo sacrifícios a tudo e a todos.
A gagueira dos irmãos parecia que evoluía. Tornava, aparentemente, mais explícita pelos sons agora mais graves, em decorrência do nível de testosterona. Chegavam à puberdade.
As dificuldades da vida no campo, as privações de toda ordem e gosto acabaram moldando as suas índoles.
Para minimizarem os traumas da deficiência, tornaram-se gozadores incontidos e acrescentaram às suas unidades de comportamento, uma outra característica, a de avaros no trato com o dinheiro, talvez para contrabalançar a prolixidade nas repetições das sílabas ao emitirem quaisquer palavras. A sovinice deles desqualificava a dos mascates de origem turca ou judaica.
Os amigos estavam fazendo vestibulares para entrarem numa universidade pública, destino de todos os privilegiados que contavam e contam com a solidariedade de todos miseráveis desse país que tutelam os ricos, mesmo ignorando suas condições de mecenas compulsórios, pelo criminoso imposto regressivo, mas isso é outra estória.
Os filhos do coronel ingressaram nas faculdades de suas escolhas e nas férias escolares retornavam as suas origens e não deixavam de conviver com os antigos amigos gagos, sempre na medida das possibilidades desses, impossibilitados pelo trabalho árduo na fazenda e que ultimamente recrudescera, pois, miseravelmente a parte da manhã dos domingos foi abocanhada pela ordenha das vacas.
Eram desgraçadamente explorados e por explorados, aceitavam as desditas como uma benevolência do coronel Souto Menor, afinal os serviços andavam escassos pela mecanização da terra.
Nesse intervalo de tempo os irmãos de “loquacidade intermitente” (expressão politicamente correta para os gagos) procuraram atendimento na rede pública para amenizar os seus problemas, mas as fonoaudiólogas concorriam com as suas deficiências nas hesitações, eles nas articulações das palavras, elas no comparecimento ao serviço.
Enfim, o somatório das hesitações formava um todo deplorável.
A formatura dos filhos do coronel foi memorável. Os filhos de Nhozinho vibraram como as conquistas fossem deles. Não cabiam de tanto orgulho e de tanta gagueira.
Depois da longa batalha para se formarem, Nilo e Sergio resolveram descansar por uns dois meses, antes de decidirem sobre o futuro e aproveitaram o tempo para matar as saudades de um passado não tão remoto.
Nos finais de semana procuravam iguarias diversas, em diversas localidades, mas sempre na companhia dos amigos gêmeos (gagos). Num local específico, a especialidade da casa ficava adstrita a uma determinada carne de caça e como as predileções variavam, as incursões eram várias.
Num certo domingo a iguaria a ser degustada era carne de paca, a predileta de Nero - o gago, mas desafortunadamente, Nero estava adoentado com espinhela caída.
Mesmos contrariados seguiram para a comilança.
O grupo não passava de 15 pessoas, todos colegas do passado e o amigo, Nilo, o tartamudo.
Serviam da purinha diretamente do barril que intercalavam com rodadas estonteantes de cervejas estupidamente geladas.
As conversas giravam sobre todos os assuntos, abordando o passado, o presente e especulações sobre o futuro. E tome purinhas e cervejas.
Nisso um filho da puta que sempre há em qualquer situação, eleva a voz pedindo silêncio.
Depois de certo tempo, o silêncio pedido faz-se presente.
O calhorda, após deglutir seu copo de cerveja diz: “Nilo, vou propor uma aposta: Caso você peça ao garçom em alto e bom som, uma cerveja, sem gaguejar, você não paga a sua parte na conta de hoje, nem nos próximos três encontros. Fechado?”
Os murmúrios variavam entre concordâncias e expressões do tipo:” isso é sacanagem”.
Nilo não titubeou (mera força de expressão): “Eeeeuu......aaaaceeiitttoooo”.
Aquele brevíssimo mal estar passou com a concordância da vítima.
As rodadas de bebidas, os tira-gostos, as conversas altas e desconexas continuaram sem tréguas.
Apenas, Nilo – o entarmelado - ficou num silêncio sepulcral, absorto por uns 50 minutos, ininterruptos.
Nilo, o agora doutor, percebeu o silêncio obsequioso do amigo e preocupado ia esboçar um comentário naquele ambiente tumultuado quando é surpreendido, como os demais, pelas porradas na mesa do outro Nilo, o gago.
Solenemente, levanta-se da cadeira e emite um som gutural como estivesse limpando a garganta e põe o dedo indicador sobre os lábios, num sinal explícito de pedido de silêncio.
Todos ficam estupefatos.
Nilo, o gaguinho, sinaliza para o garçom e num esforço hercúleo faz o pedido: “Garçom, uma cerveja” (isso, de forma arrastada, tirando as palavras a fórceps, sem gaguejar).
Atônitos no primeiro momento aquele grupo começa a berrar e bater palmas e mais palmas para o Nilo, agora, o ex-gago.
A alegria é contagiante, de Nilo e de todos.
Aquele júbilo do Nilo tinha duas razões claras:
- primeiro, por ter vencido pela primeira vez na vida aquela impossibilidade, aquela penosa hesitação na articulação das palavras, aquela demora e perpétua repetição das palavras;
- segundo, por avaro no trato com o dinheiro, não despenderia um tostão por outros e por aquele festim que ficava devendo, apenas, aos banquetes de Bacon pela ausência da lascívia, em função da inexistência de mulheres.
Nilo, o ex-gaguinho, continua em êxtase.
Nisso, o garçom retorna e faz a seguinte indagação: “Brahma ou Antártica????”
E Nilo lívido, responde: “Aaaaahhhh....Aa aa-ai ai aiiiii ....fu fu fu deuuuuuu”.
Puta que pariu Paulão...
ResponderExcluirVocê criou toda essa introdução pra essa piada!!! É um sacana...
Parabéns pelo BLOG!
Abração
Vedove
Concordo com o Luis.
ResponderExcluirConhecia a piada, mas o conto ficou fantástico.
Parabéns Pai!
Marcus,
ResponderExcluirA aludida piada não é minha, segundo o Nilinho é pura expressão da verdade.
Obrigado,
Papai
Luis,
ResponderExcluirVeja minha situacão: fui um crédulo ao ouvir um comentário do Nilinho e a referida piada é um fato real, por ele presenciado.
Grato,
Paulão